Um Tapinha não dói
Sabe, sou do tipo de pessoa que arquiva. Um folheto de evangelismo, um cartão dado de coração, uma ótima matéria, lida em um jornal qualquer ou revista. E as vezes esqueço. Tempos depois, quando vou remexer tudo aquilo que para mim começa a parecer lixo, acho tesouros incalculáveis. É o que aconteceu hoje, revirando alguns papéis achei este texto. Escrito por Luciano Trigo – Jornalista O Globo – Escrito a cerca de 7 ou 8 anos atrás a matéria que segue nunca foi tão atual e urgente.
Um tapinha não dói – por Luciano Trigo
Cheguei a uma conclusão neste carnaval: sou mesmo um homem do século passado. Depois de ouvir pela milésima vez refrão como “Um tapinha não dói” , “Vou te jogar na cama e te dar muita pressão” e “entra e sai, na porta da frente e na porta de trás”, acompanhados de coreografias para lá de sugestivas, a sensação que tenho é de que chegamos ao limite da baixaria. Simplesmente, não temos mais para onde ir. Sei que o fenômeno do funk é interessante do ponto de vista antropológico e sociológico, que ele reflete um entrelaçamento positivo entre o morro e o asfalto, uma diluição promissora das fronteiras entre as classes sociais, etc.
Mas gostaria que alguém intelectualmente “preparado” me disse o que passa pela cabeça de uma adolescente de família, que rebola e responde “ Au, Au!” quando ouve o refrão “Cachorra!”
A virada do milênio jogou muita coisa na lata do lixo da história, e acho que neste processo foi junto nossa capacidade de indignação. Tiveram o mesmo destino, para o bem ou para o mal, diversas conquistas das feministas, que depois de lutarem durante décadas contra a opressão do macho, devem estar vendo consternadas, suas filhas embarcarem no bonde do tigrão.
É intrigante, aliás, a inexistência absoluta de reação, por parte das mulheres pensantes do país ao processo em curso de vulgarização radical da imagem feminina, que já ultrapassou todos os limites da indignação. Mas o mais intrigante mesmo é a questão moral, ou melhor, a ausência de moral como questão. Não se trata mais de uma inversão de valores, mas da eliminação total de qualquer valor relacionado a conduta sexual: todo o comportamento é legitimo, e o que no passado era motivo de escândalo hoje pode ser assimilado, maquiado, e até incentivado pela mídia, em horário nobre.
Um exemplo desse fenômeno é o novo status de uma variação da profissão mais antiga do mundo: a garota de programa. Hoje, a julgar pela mídia, esta é uma atividade natural, que não contraria as normas da vida em sociedade nem estigmatiza quem a pratica. Sem alicerces morais, sem noção do certo ou errado e com exemplos como este, o que impedirá de uma menina bonita usar seu corpo para ascender socialmente, num mundo que a estimula permanentemente a se transformar num bem de consumo para que ela própria possa consumir outros bens? Ou, para não irmos tão longe, o que a convencerá de que o sexo deve ser vinculado ao amor, e não transformado num instrumento de exploração mútua, num mundo regido pelas aparências e pelo dinheiro, onde um carro importado vale mais que a honestidade e o caráter? Não se trata de defender uma sociedade repressiva, mas o fato é que essa total ausência de freios explica a proliferação de orgulhosas “cachorras” e “preparadas” em todas as frestas do tecido social. É claro que elas sempre existiram, mas antes pelo menos havia um pudor em relação as aparências que as confinava simbolicamente a uma margem, a uma periferia simbólica da vida cotidiana. Numa palavra havia vergonha.
Este pudor e esta vergonha desapareceram, e hoje a cidade mais parece um faroeste, e sua vida noturna o cenário de um caça desesperada ao prazer e à grana.
E isto durante o ano inteiro: o Carnaval só torna mais evidente essa dinâmica. Um tapinha pode não doer, mas o que ele representa é doloroso, pelo menos para alguém do século passado.