Sombrio nº 5

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Afasta o nome de Deus da tua poesia
Porque ela é feita de carne e de lodo.
Afasta o nome de Deus que é puro e amoroso
Da tua poesia que torva e maldita.
Afasta o nome de Deus das tua palavras
Porque elas são irredentas e exaltadas,
Elas são orgulhosas de sua humildade,
Dentro delas o nome de Deus é uma profanação.
Afasta da tua poesia o nome de Deus
Dessa poesia gerada no ressaibo de todas as misérias
E vestida de trapos que em vez de velarem a nudez
Arrastam-na pela ofensa de todos os pudores.
Risca o Seu santo nome desta poesia endemoniada.
É como se fosse o espetáculo publico de uma virgem
Sob os lábios de cobra de uma lésbica excitada.
É uma poesia de dores violentas como a castração
E acurada no maior rendimento do sofrimento.
Tua poesia esta no vermelho dos ferros em brasa
Que antes de marcarem as ancas das rezes
Foram à prova nas brancas nádegas das mulheres.
Tua poesia está no sangue coagulado dos estrúpos,
Na frieza dos cadáveres sob o coito dos necrómanos.
Na ânsia dos sexos que em vida não conheceram par
E acabaram melancolicamente em lama de catacumba.
É uma poesia humilhada de masturbações,
Uma poesia iluminada de sulfurosas rutilâncias,
De nervos rotos, predestinadas a uma clinica,
Bem capaz de viver cem anos conservada em álcool.
Me convences de que é tua primeira amiga
Quando melhor seria dizer primeira amante.
É ela quem te protege das penas dos códigos,
Quem evita o apupo da multidão pelas ruas
A gritar-te no encalço, louco, louco! E sórdido!
É ela que sem sacrificar-se garante o teu lugar
Entre as mesas da repartição e o conceito bom
Donde tiras o pão que dá sustento ao corpo
Que equilibra o espírito que para ela vive.
É a fabrica dos gozos mais arrojados e inofensivos,
Substância das tuas lagrimas e gargalhadas,
Serva e cadela quando não mãe ou boa esposa.
Virtuose de prazeres que molda a um simples desejo,
Novo e mais belo Gabriel ou Satanás mais negro.
Teu aeroplano de santidade e perdição,
Teu barco ao alvorecer, tuas velas ao vento,
Tua estrada de espinho e manjeronas,
Teu leito de núpcias, mas teu Paul onde refocilas.
Afasta dessa poesia torpe o nome de Deus.
Dessa poesia de maldição o santo nome de Deus.
Deus é a certeza , ela é a escada para o desespero.
Afasta dessa poesia sanguinolenta Seu nome inocente.
Esse sangue de dor turva e pureza do vinho,
Nessa carne de lodo e pão não germinará.
Afasta, desgraçado poeta, da tua poesia
O santo nome de Deus, o santo Nome de Deus!

Manuel Cavalcanti

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