Sem Título – Herman Hesse

Postado em Herman Hesse em 10 Novembro, 2009 por Edson Duarte

amor

Alguém amou e, amando, encontrou-se.
Quantos não há, porém, que amam para se perderem.
Que seria da razão e do bom senso,
se não houvesse a loucura?
Que seria do prazer dos sentidos,
se por trás dele não estivesse a morte?
Que seria do amor
sem o eterno e mortal antagonismo dos sexos?
Amor não deve pedir,
nem tampouco exigir.
Ele haverá de ter a força
de chegar por si mesmo à certeza
e ao invés de atrair,
passa a ser atraído.

40 graus de febre

Postado em Sylvia Plath em 9 Novembro, 2009 por Edson Duarte

cerbero2

Pura? Que vem a ser isso?
As línguas do inferno
São baças, baças como as tríplices

Línguas do apático, gordo Cérbero
Que arqueja junto à entrada. Incapaz
De lamber limpamente

O febril tendão, o pecado, o pecado.
Crepita a chama.
O indelével aromaDe espevitada vela!
Amor, amor, escassa a fumaça
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo

Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
A amarela e morosa fumaça
Faz o seu próprio elemento.

Não irá alto
Mas rolará em redor do globo
A asfixiar o idoso e o humilde,
O frágilE delicado bebê no seu berço,
A lívida orquídea
Suspensa do seu jardim suspenso no ar,

Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.

Três dias. Três noites.
água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus.

Sou uma lanterna
- Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.

Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.

Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto -
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,

De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem eleNão ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha)
Ao Paraíso.

Tradução de Afonso Félix de Souza

Isabor

Postado em Theodorus em 8 Novembro, 2009 por Edson Duarte

palhaco
A vida me é um circo maravilhosamente colorido, onde me deleito como palhaço.
Grandes sapatões de enormes buracos em suas solas. Uma cabeleira de fogo em dois tufos ao lado da careca lustrosa.
A enorme bola que é meu nariz vermelho, lembra-me sempre, que esse mundo gira, gira, e gira sem parar.
Que por isso mesmo, medo algum me ameaça, ou violência alguma me toca.
Sei meu ínfimo papel nessa grandiosa peça da tragicomédia humana.
Sei onde estar, a hora e tempo, sob as luzes ou na mansa escuridão por detrás dos holofotes que criam imensas esferas de luz para os trapezistas em seus mirabolantes vôos por sobre a rede.
Sei que estar vivo é belo.
Sei que estar aqui e agora, também é belo.
Sei que poder esperar-te por sob a lua que nascera também é belo.
Pois será lá, a margem do rio de minha aldeia, que sentado em silencio, comporei odes e poemas enlouquecidos de amor e de dor.
Amor por te ter assim tão perto no céu de minha aldeia.
Dor por te saber, sentir e viver na praia distante e ensolarada…
Vês, percebes porque sou um palhaço?
É a dor, a frustração, de saber-te ausente desse espetáculo em que me faço mais autentico, horas antes que tu despertes de teus sonhos.
Vivo em um tempo que com a noite próxima me transformo no lustroso e negro lobo da aldeia. Mantendo em meus devaneios e sonhos, a esperança, o inaudito desejo de tocar-te de leve as asas douradas em teu vôo matutino…
Isabor.

No túmulo de um inglês

Postado em Euclides da Cunha em 7 Novembro, 2009 por Edson Duarte

Vasco da Gama

 

És bem feliz,mylord!… na tua tumba fria
Um sono gozas, bom — no seio da soedade
Feliz!… não tens o Sol de tu’Albion sombria
Mas tens o olhar de Deus — O Sol da eternidade!…
És bem feliz mylord a triste ventania
Soluça nos ciprestes os cantos da saudade…
Quem sabe se te traz — em vozes de agonia—
Os risos e as canções de tua mocidade!…
Estás livre do splen… invejo-te deveras…
Do túmulo a sombra espanca as pálidas quimeras.
— Em teu berço de pedra embala-te a soidão…
És bem feliz mylord — assim antes eu fora!…
Tu tens a calma eterna, a solidão sonora
E tu não tens — feliz — não tens — teu coração…
Rio — 2 de Novembro 1883.